fragmento 7

outro dia conversei com m. disse-lhe que parasse. ele não me ouviu. saiu praguejando palavrões, pegou o fone de ouvido, voltou tarde pra casa. naquela época, achei debaixo da cama um caderno vermelho, em cuja capa estava escrito “retórica para o novo século”. li dois ou três contos sobre o pai; um soneto dedicado à avó e outras anotações, reflexões, apontamentos, desenhos, rabiscos.

m. nunca para. aos dezoito andava apressado, caía nos becos, os olhos muito turvos, a lua em seu pensamento. uma menina também cegueta passou nove meses ao seu lado ssssssusssssurrrrrrannnnndo cartas do século xix – m. não aguentou, fez-lhe críticas ácidas, disse que ela teria de ser realfabetizada, fora um drama. os dois pararam-se.

sei disso porque no caderno vermelho está tudo escrito. no fim segue esta carta:

“i,

passei quatro anos tentando lhe entender e, na verdade, era eu quem não me entendia. também passei quatro anos sentindo saudades suas, mas, como sempre, fui covarde e deixei que meus impulsos fechassem o meu semblante, meus olhos e meu coração.

saiba que, se não pude quebrar certas barreiras sociais, não fora por falta de vontade.

espero que tenha sucesso em sua vida, que evite pessoas de meu tipo, que acredite na felicidade e que sempre poderá ficar algum resquício de melhor do nosso suposto inimigo.

fraternidade,

m.”

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